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sábado, 15 de março de 2014

Exposição: Renan Marcondes: Formulações ao insuporte, na Kunsthalle


Uma vez escrevi sobre o trabalho do Renan que nele residia uma racionalidade cartesiana, uma busca por existir autonomamente através do próprio pensamento. Esse escrito faz tempo, mas a essência do trabalho do não se perdeu.

Muito ao contrário, deu um salto, um passo à frente no percurso do trabalho, aprofundando mais  as questões de autonomia.

Renan talvez tenha transcendido a necessidade de  conhecimento para constituir uma individualidade que estava antes tão presente nos trabalhos anteriores - às vezes representados pelos seus signos mais evidentes, como o livro, o papel, a grafite; às vezes em virtude de referências no título a questões específica desse campo. Talvez tenha resolvido entregar-se a esse mundo do possível e “aprender de que maneira sujeitos e objetos podem se tornar menos sujeitos e menos objetos e mais coisa”(LEPECKI, 2012, p.96).

Mas não perdeu, absolutamente, sua busca por um raciocínio lógico e pela precisão; internalizou-o. Assim como continua buscando uma definição para si, para seu corpo. Levou a precisão para o íntimo do seus ensaios da construção do seu trabalho, enquanto liberou-o para experimentar e também ser experiência para seu espectador. O que vemos é um desafio do corpo, num questionar-se, desafiar-se em trabalhos braçais e repetitivo que afetam diretamente corpo e discurso, desconstruindo qualquer utilidade e encontrando outros usos e outras possibilidades desvinculados do ordinário. Isso também faz parte da busca de sermos outros que não os mesmos, de irmos seguindo em frente nas possibilidades que se nos abrem: é o abraço ao descentramento da falta da estrutura contemporânea sem cair na facilidade do cinismo. O trabalho é, enfim, ainda propositivo e desafiador da incessante busca humana pela sua própria essência, agora, ainda, com a liberdadede encontra-la onde quisermos.

Entendo ser importante e fundamental a apresentação de questões na arte dentro dessa contradição ou paradoxo que é moto do debate e não que seja o paradoxo em si. Essa dualidade lógica-ilógico/ racional-sensível acho que é algo que seja enriquecedor e o trabalho é rico por isso: pela busca incessante pela construção de um discurso coerente que demonstre um avanço na própria constituição e composição das identificações humanas.

Sobre o trabalho do Renan, tem fotos aqui e vídeo aqui.

Sobre a Kunsthalle, vejam aqui.


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Expo: Quim Alcantara



Quim Alcantara usa da beleza para apresentar sua arte que tem como assunto as questões ambientais, fazendo as pessoas, pelo belo, refletirem.

Com tinta acrílica e fibras naturais Quim pinta uma realidade que esquecemos de ver e que, se descuidada, deixará de existir. Quim mistura as coisas da natureza para criar floreletas, bolhóis, petalulhas e outras figuras híbridas, numa explosão de cores quase sempre alegres para despertar o interesse e o deslumbramento.

E toda arte deveria ser vista e discutida, porque a toda arte cabe questionamento e admiração e esses dois objetivos são buscados, e atingidos, pelo Quim, que  através do seu fazer consciente, é capaz de construir uma experiência. 

Por isso mesmo ela está aqui no bar, um local nada institucionalizado de exposições da arte, o mais público e plural possível, trazendo para mais perto do público a obra de arte. E aqui, principalmente, a arte contemporânea que clama por um tempo de digestão, senão ao primeiro contato, para descobrir o que está por traz de todas essas cores e belezas.

A expo fica em cartaz até o dia 04 de julho e todos os quadros estão à venda: info@quim.com.br ou 9239 5579.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Exposição: Cris Garcia: Máscaras do Eu






Esposa, mãe, empresária, filha, estudante…as mil faces de uma pessoa. Mas qual delas é a verdadeira? Todas e nenhuma. Nos angustia ter de sustentá-las e ter de vivê-las querendo vivenciar a nós mesmos. Isso é o cotidiano,
aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma pressão no presente. Todo dia, pela manhã, aquilo que assumimos, ao despertar, é o peso da vida, a dificuldade de viver, ou de viver nesta ou noutra condição, com esta fadiga, com este desejo. O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. É uma história a meio-caminho de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada." CERTAU, Michael de. A invenção do cotidiano. 1. Artes do fazer. 13, ed. Tradução de Ephraim Ferreira Alves – Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
E somos todos "camaleões humanos", tais quais Zeligs, diluídos numa massa de milhões de habitantes, procurando nos adaptarmos e assim constituirmos nossa existência. É disso que fala a obra da Cris com a leveza e a personalidade que lhe é peculiar e imensa!

A discussão é, então, proposta por quem sabe dos papéis que tem e os desempenha com muita propriedade; mas justamente por não se resumir a eles percebe a pressão e a dificuldade de viver sob os mesmos.   

Que papel desempenhamos hoje, aqui, nesse lugar? Onde somos nós mesmos? E o que estamos construindo com as máscaras que escolhemos vestir a cada manhã?

Paulistanos que somos (ou que estamos!), como a cidade que tem mil temperaturas, mil estações todas num dia só, assim somos nós: mil faces ao mesmo tempo. E por trás de tudo isso, há um eu, um nós, um Leonard Zelig sobrevivendo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Exposição: MaDu: Bi(bli)ografias


(Para essa exposição não houve um texto curatorial, simplesmente porque não cabia. Para cada obra ou série, entretanto, foi relacionado um texto literário que se vê abaixo).



Tudo (em mim) é quebrado, anónimo e impertencente.
Tudo ali é quebrado, anónimo e impertencente. Vi ali grandes movimentos de ternura, que me pareceram revelar o fundo de pobres almas tristes; descobri que esses movimentos não duravam mais que a hora em que eram palavras, e que tinham raiz — quantas vezes o notei com a sagacidade dos silenciosos na analogia de qualquer coisa com o piedoso, perdida com a rapidez da novidade da notação, e, outras vezes, no vinho do jantar do enternecido. Havia sempre uma relação sistematizada entre os humanitarismos e a aguardente de bagaço, e foram muitos os grandes gestos que sofreram do copo supérfluo ou do pleonasmo da sede.
Essas criaturas tinham todas vendido a alma a um diabo da plebe infernal, avarento de sordidezas e de relaxamentos. Viviam a intoxicação da vaidade e do ócio, e morriam molemente, entre coxins de palavras, num amarfanhamento de lacraus de cuspo.
O mais extraordinário de toda essa gente era a nenhuma importância, em nenhum sentido, de toda ela. Uns eram redactores dos principais jornais, e conseguiam não existir; outros tinham lugares públicos em vista no anuário e conseguiam não figurar em nada da vida; outros eram poetas até consagrados, mas uma mesma poeira de cinza lhes tornava lívidas as faces parvas, e tudo era um túmulo de embalsamados hirtos, postos com a mão nas costas em posturas de vidas.
Guardo do pouco tempo que me estagnei nesse exílio da esperteza mental uma recordação de bons momentos de graça franca, de muitos momentos monótonos e tristes, de alguns perfis recortados no nada, de alguns gestos dados às serventes do acaso, e, em resumo, um tédio de náusea física e a memória de algumas anedotas com espírito.
Neles se intercalavam, como espaços, uns homens de mais idade, alguns com ditos de espírito pregresso, que diziam mal como os outros e das mesmas pessoas.
Nunca senti tanta simpatia pelos inferiores da glória pública como quando os vi malsinar por estes inferiores sem querer essa pobre glória. Reconheci a razão do triunfo porque os párias do Grande triunfavam em relação a estes, e não em relação à humanidade.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1982.  - 70.


Com o desmoronamento de minha civilização e de minha humanidade eu passava orgiacamente a sentir (o gosto da identidade das coisas).

O neutro é inexplicável e vivo, procura me entender: assim como o protoplasma e o sêmen e a proteína são de um neutro vivo. E eu estava toda nova como uma recém-iniciada. Era como se antes eu estivesse estado com o paladar viciado por sal e açúcar, e com a alma viciada por alegrias e dores – e nunca tivesse sentido o gosto primeiro. E agora sentia o gosto do nada. Velozmente eu me desviciava, e o gosto era novo como o do leite materno que só tem gosto para boca de criança. Com o desmoronamento de minha civilização e de minha humanidade – o que me era um sofrimento de grande saudade – com a perda da minha humanidade, eu passava orgiacamente a sentir o gosto da identidade das coisas.

A paixão segundo G. H. Clarisse Lispector. São Paulo: Rocco, 1998. 66-67


Não me deixes ver porque estou perto de ver o núcleo da vida e tenho medo de que neste núcleo eu não saiba mais o que é esperança
E na minha grande dilatação, eu estava no deserto. Como te explicar? Eu estava no deserto como nunca estive. Era um deserto que me chamava como um cântico monótono e remoto chama. Eu estava sendo seduzida. E ia para essa loucura promissora. Mas meu medo não era o de quem estivesse indo para a loucura, e sim ara uma verdade – meu medo era o de ter uma verdade que eu viesse annao querer, uma verdade infamante que me fizesse rastejar e ser do nível da barata. Meus primeiros contatos com as verdades sempre me difamaram.
- Segura a minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina, estou indo para um inferno de vida crua. Não me deixes ver porque estou perto de ver o núcleo da vida – e, através da barata que mesmo agora revejo, através dessa amostra de clamo horror vivo,  tenho medo de que neste núcleo eu não saiba mais o que é esperança.

A paixão segundo G. H. Clarisse Lispector. São Paulo: Rocco, 1998. P. 40

Meu corpo em pedaços e desgastado

Hoje, porém o tempo (que já não tem serventia para mim) está se esgotando. Logo farei trinta e um anos. Talvez. Se meu corpo em pedaços e desgastado permitir. Mas não tenho nenhuma esperança de salvar minha vida nem de dispor de mil e uma noites. Preciso trabalhar depressa, mais depressa do que Sherazade, se é que pretendo acabar contando alguma coisa que faça sentido – isso mesmo, sentido. Admito: acima de tudo, tenho medo do absurdo.

Filhos da Meia Noite. Salman Rushdie. São Paulo: Editora Companhia das Letras. P. 20

Da desnecessidade de ser mulher

Um edifício cinzento e cachapado, de trinta e quatro andares apenas. Acima da entrada principal, as palavras CENTRO DE INCUBAÇÃO E CONDICIONAMENTO DE LONDRES CONTRAL e, num escudo, o lema do Estado Mundial: Comunidade, Identidade, estabilidade.

Admirável Mundo Novo. Aldous Huxley. Rio de Janeiro: Globo Livros, 1981. P. 33

Da inabilidade de ser mulher
Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher

Super-Homem, a Canção. Gilberto Gil



Da impossibilidade de ser mulher
 GOZO INSATISFEITO   
Entre o gozo que aspiro, e o sofrimento
De minha mocidade, experimento
O mais profundo e abalador atrito...
Queimam-me o peito cáusticos de fogo
Esta ânsia de absoluto desafogo
Abrange todo o círculo infinito.

Na insaciedade desse gozo falho
Busco no desespero do trabalho,
Sem um domingo ao menos de repouso,
Fazer parar a máquina do instinto,
Mas, quanto mais me desespero, sinto
A insaciabilidade desse gozo!

EU. Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1971. P. 289

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Exposição: Cláudio Manculi: Movimentos da Caixa Preta




Hoje em dia, todo mundo tem uma câmera e o Instagram instalado no telefone. Mas o que é - e o que pode - efetivamente uma fotografia?

A idéia de que a imagem representa/ registra o mundo é muito mais velha que a própria fotografia: a humanidade já fazia isso nas paredes da caverna... Para piorar, a imagem técnica emancipa a sociedade de pensar conceitualmente (já que a representação é idêntica à coisa representada, não há conceito, abstração ou ressignificação). Assim, todo o dia, quando fotografamos inadvertidamente com os nossos celulares, não estamos criando nem pensando. E por mais tecnológico e de última geração que seja a nossa câmera, não fazemos mais do que os homens das cavernas. Estamos, às vezes, fazendo até menos, jogando um jogo exatamente como ele foi proposto. É o exibir-se vazio e contemporâneo, típico das redes sociais, contaminando o olhar.

Mesmo quando o fotógrafo, agora com esse nome, preocupa-se tecnicamente com o resultado e sabe manipular e programar a sua máquina fora do "manual", nem sempre ele age autonomamente. E, muitas vezes sem perceber, passa simplesmente a repetir a imagem existente no mundo, sem conceitos, sem pensar. Sim, para a autonomia da imagem o próprio fotógrafo deve atingir uma emancipação cultural de modo a ir além das intenções pré- determinadas dos objetos, também lançando luz sobre a descoberta de novas visões através de um ato conceitual. É isso o que diz Vilém Flusser, filósofo da fotografia que inspira o Cláudio e cujo livro dá nome a essa exposição.

Nas fotos aqui expostas, distorcidas, desfocadas, rabiscadas, duplicadas, é a vitória do Cláudio sobre o aparelho, seja ele a máquina digital mais bambambam ou seja a que ele mesmo fez, com caixas de fósforo e filme. Muito embora, a primeira vista possa parecer o contrário. Não se tratou aqui, em momento algum, de acaso cego e as fotografias aqui expostas, em última instância, são, na verdade, resultado de uma produção consciente na discussão da própria fotografia e na problematização dos seus elementos-chave dentro da produção fotográfica, tal qual Flusser almejou.

* * *


Fotos aqui

A produção da noite contou com Leonardo Muniz, Matteo Papaiz e Igor Pimenta fazendo um Tributo ao Ornette Coleman.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Exposição: Felipe Cidade: Transgressões



Transgressão significa a ação humana de atravessar, exceder, ultrapassar, noções que pressupõem a existência de uma norma que estabelece e demarca limites. Seu significado transitou da esfera geografica, na qual fixava o limite para as águas do mar à concepção ético-filosófica, que abriga desde preceitos morais e religiosos até as leis do Estado. Daí, as contraposições entre bem e mal, mandamento e pecado, código e infração.
Nas ações criativas humanas, transgressor e transgredido tendem a confundir-se. Por essa razão, o ato criador não se processa em série, como numa linha de montagem predeterminada. O criador/transgressor é o agente solitário que opera a superação de si mesmo na ruptura com o mundo que o cerca. Cada um, ao buscar, ao inventar, ao tentar o ainda-não-ousado, o novo, incorre em transgressão, não como subversão da ordem, mas como implementação, como criação. (Wikipedia)

Arte é só o que é festivo, alegre e colorido ou arte é só o revolucionário e o iconoclástico? Reapresentar o que já foi feito é original? Qual o limite da referencia? E o da cópia? A arte precisa ser original? Transgressão como desrespeito a leis não é reacionário?  E ser reacionário não é conflitante com ser transgressor?



Entendo que, nada mais amigável do que o copo de cerveja e essa mesinha de Madeira, os sofás do Kabul, para permitir que sentemos e o papo vire: que cazzo é isso que vemos aqui?

A exposição do Felipe é, dentro desse propósito de trazer a arte contemporânea para o bar, a porção de batatinha fritas que trago para vcs hj. Escolham o sabor!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Exposição: Andrea D'Amato - Busca do Espaço

A Andrea precisa do espaço. Não só porque ela é mais alta do que todo mundo, mas porque sabe que pode ocupá-los. 

Pode soar megalomaníaco, mas os trabalhos imensos da Andrea representam essa necessidade de conquista. Não é a toa que seus estudos em gravura que desembocaram nessa exposição foram nomeados Busca do Espaço. E dessa necessidade inerente à artista surge essa arte que, além da escala, traz antes de tudo uma questão formal da própria arte. Afinal, porque que a arte tem de ser algo mais do que o que está ali escancarado na sua frente? Não nos basta a experiência estética absorvida por cada uma obra de arte? Porque tudo tem de ter uma mensagem edificante ou iluminadora por trás? 

Mas a verdade é que a Andrea não se furta da questão da arte. Se é verdade que o desenho expandido é uma realidade na arte há muito, Andrea, a meu ver, o vê pelo outro lado. Se a desenhista passa a ser escultora, o caminho da Andrea foi o oposto: a escultora que passa a usar o gráfico para ocupar o espaço. Pode parecer, ao final que chegaram ao mesmo lugar e que no fim, dá tudo na mesma. Acho que não. Trata-se de uma diferença de experiências, expectativas e discursos que acabam por imprimir alterações no resultado final: a linha pincelada lá e a linha projetada aqui. Tanto é assim que no trabalho bidimensional aqui exposto, a profundidade é a maior virtude. 

Mas sei lá. Pode ser que no fim, a ordem dos tratores não altere mesmo o viaduto. E para que se preocupar com isso? Afinal, a sensação de cada um em busca do seu próprio espaço nessa sala cabe a si mesmo, individualmente. 

A Andrea já conquistou essa sala, espero, de coração, que não pare de tentar conquistar o mundo!

* * *

Fotos da Exposição no Kabul podem ser vistas aqui. A abertura contou com show do Jonavo.

terça-feira, 6 de março de 2012

Exposição: Renan Marcondes: normal entre os meus


Cogito, ergo sum!
Um brinde a racionalidade! Um brinde ao estranhamento de buscar a racionalidade numa sociedade do espetáculo, na qual aparecer (a qualquer custo) é mais importante do que ser - existir autonomamente através do próprio pensamento.
Esse é Renan. E ele quer ser. Desesperadamente. E desesperadamente quer também questionar a necessidade de ser através disso. O que é que nos define?
Na necessidade de existir, Renan experimenta várias linguagens e torna-se um artista extremamente versátil, como mostra esse pequeno selecionado de trabalhos de 2010 para cá. Pintura, instalação, vídeo-performance, objetos e a performance aqui, ao vivo.
E ser versátil não é fazer qualquer coisa ou de tudo um pouco. Apesar do uso de diferentes linguagens, o conjunto apresentado é coeso e representativo da questão que o aflige: a necessidade de conhecimento para constituir uma individualidade. Em cada um dos trabalhos vê-se a questão do aprendizado, da língua e da linguagem - às vezes representados pelos seus signos mais evidentes, como o livro, o papel, a grafite; às vezes em virtude de referências no título a questões específica desse campo.
Em qualquer área, entretanto, fica claro o esmero do Renan e o que justifica chamá-lo de artista. Aquilo que faz alguém ultrapassar a linha do racional, para atingir o sublime e as emoções. Porque não há nada mais sublime e emocionante do que aprender-se e aprender a ser.
E no fim, devo confessar aqui, essa exposição é uma das mais significativas para mim pela relação protocooperativa que eu tenho com o Renan. No fim, eu e ele temos a mesma preocupação: como SER (assim, com letra maiúscula mesmo e no sentido mais cartesiano) nesse mundo contemporâneo no qual compramos o que pensamos, vestimos nossas posições de acordo com o romantismo e a conveniência e no qual o importante é aparecer. Somos normais entre nós.
Veja Fotos da Exposição. Tem mais fotos aqui e aqui.
Na abertura contamos com o super projeto Palco Aberto, com um coletivo organizado pelo Cláudio Manculi, Sueli Feliziani, Flavinho Arruda e Jonavo. Contamos com a participação no palco aberto do Luis Aranha, do Leonardo Muniz e do Nilson Ikejima

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Exposição: Panorama Zita Viana de Barros


A arte não tem lugar.
E assim como a street art precisa invadir os museus, o que está no museu deveria estar na rua, ao alcance e visão de todos, porque a institucionalização gera elitização. Toda arte deveria ser vista e discutida, porque a toda arte cabe questionamento e admiração.
E a prova de que a arte não tem lugar, nem hora, nem história, é a arte da Zita.
Aluna do Estudio Gravura, do Livio Abramo, em 1960, chegou a expor em Londres em 1967 na Young Brazilian Art, coletiva organizada pelo Royal College of Art, junto com diversos artistas, dentre os quais Helio Oiticica, Iberê Camargo, Manabu Mabe, Tomie Ohtake, Antonio Henrique Amaral e Maria Bonomi. Dessa fase, há duas gravuras suas no acervo do MAM, inclusive.
Produziu até cerca de 1972, mesma época em que fora contratada para gravar as matrizes da Tarsila do Amaral, já no fim da vida.
Nessa época, teve os filhos e abdicou da arte. Foi ser apenas a Tia Zita dos alunos, dos sobrinhos, dos meninos do grupo escolar, além de mãe. Hoje, filhos criados, octogenária, voltou a pintar e a gravar.
Além das gravuras há óleos, pasteis e aquarelas que dão uma pincelada no panorama de toda a sua produção, seja a dos anos 60 ou a dos anos 2000.
A obra dela, interrompida, não foi refém da interrupção e da sua poesia. Sua arte, no limiar da contemporaneidade, ganha hoje o bar para inspirar a vida de todos os que produzem e poetizam, como ela mesmo gosta de ordenar, para que nunca desistam.
Essa exposição não estaria aqui sem a inestimável ajuda da Ana Luisa Duarte Garcia, do José Maurício Rocha, sem a generosidade de todos os colecionadores, Mara, Fredo, Célia – e claro! – sem a autorização da Zita!
Veja fotos da exposição.

No dia da abertura, contamos com o som de Luis Aranha.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Exposição: Escadas Corredores e Corrimões

Expo realizada no Kabul entre 10 e 14 de janeiro de 2012 e que contou com gravuras, desenhos e fotografias de Cláudio Manculi, MaDu, Mara Moreira e Tabo Garcia.

Para a abertura no dia 10, contamos com a presença do Guilherme Eddino!

Veja fotos da exposição.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Exposição: Paisagens Urbanas- Antonia Domingues, Jorge Feitosa e Cláudio Manculi


A exposição tem a intenção, além da evidente função de divulgar o nome destes três brilhantes novos artistas, de mostrar três olhares distintos sobre o mesmo tema: a cidade. Jorge Feitosa nos apresenta uma cidade imaginária, constituída das muitas cidades do mundo, dos muitos elementos arquitetônicos que a contém ou das muitas cenas cotidianas que aqui se passam. Como se não bastasse o enquadramento para o clique para contar uma verdade própria, Jorge ainda se vale da manipulação digital para reforçar, recontar e ressignificar o que só o seu olhar capta, extrapolando a subjetividade das imagens. As fotos de Antonia Domingues, por sua vez, trazem sempre algo entre o onírico e o ab- surdamente concreto, nesse paradoxo que inunda a alma feminina, criando cidades de sonhos reais. O que se traduz também na sua impressão artesanal e manual, de singeleza e força, típicamente femininas. Já Cláudio Manculi apresenta fotografias que estão em algum lugar entre o surreal e o fantástico, com forte influência da pintura impressionista, seja pela forma como trabalha as cores e a luz de suas paisagens ou pelas inusitadas sobreposições de suas imagens que, anote-se, são construídas na própria câmera e não com manipulação digital, que conferem a elas uma sensação de que aqueles locais não pertencem ao mundo ao qual conhecemos.
Está em jogo na exposição assim formatada, a pluralidade de opiniões e as múltiplas questões envolvidas no relacionar-se com a cidade, muito embora, reconhecidamente, o foco destas questões estejam no lirismo e na paisagem em si e não nas relações sociais que nela se encerram. Não há nas fotografias dos três artista aqui escolhidos e reunidos um foco para os claros problemas das cidades metropolitanas. Não se tratam, em absoluto, de fotografias-denúncia do que é cotidiano na cidade.
E muito ao contrário destas, que muitas vezes apenas explicitam as questões já conhecidas, sem qualquer reflexividade sobre o porquê dos problemas e do próprio espaço urbano, há nas fotografias líricas desses três artistas, um olhar justamente para o que há de esquecido e o que tem de ser diuturnamente construído por nós para suportar a existência nesse espaço cujo conceito dominante (e até meu mesmo) sobre esse espaço que, muitas vezes, é a própria metáfora de tudo o que constrange, impede e bloqueia o exercício pleno da liberdade, da convivência, da afetividade e da feminilidade.
Veja Fotos da Exposição